Moda além da criação: Hanny Duchini conta como dados e estratégia moldam novas possibilidades profissionais para os designers.
- Anna Mattiello
- há 2 dias
- 5 min de leitura
A trajetória profissional na moda raramente é linear. Entre criação, produto, desenvolvimento, planejamento e compras, muitos caminhos se cruzam — e, às vezes, se reinventam. Alguns anos após sua primeira entrevista para a Versi Têxtil, a designer de moda Hanny Duchini retorna ao blog para compartilhar um momento completamente diferente de sua carreira: desta vez mais estratégica, analítica e segura das escolhas que construiu ao longo do tempo.
O amadurecimento da profissional, hoje gerente de compras da Renner, não veio apenas com o passar dos anos, mas com a capacidade de enxergar a moda como um sistema integrado, onde criação e números caminham juntos. Se antes o foco estava nos processos e na execução, hoje a visão é de longo prazo: entender onde se quer chegar, quais recursos são necessários e quais decisões precisam ser tomadas para sustentar esse futuro. Essa mudança de perspectiva trouxe não apenas mais qualidade ao trabalho, mas também mais tranquilidade na rotina profissional.

Formação técnica como base para decisões estratégicas
Hanny afirma que ao olhar para trás, fica claro que disciplinas muitas vezes subestimadas na graduação se tornaram fundamentais na prática diária. Conhecimentos sobre matéria-prima, controles de produção, de qualidade e noções de modelagem são pilares para quem lida diretamente com produto. Somam-se a eles as matérias ligadas à estratégia de negócio, como planejamento de coleção e negociação.
Há, no entanto, um aprendizado que ela gostaria de ter desenvolvido ainda na faculdade: o domínio de ferramentas de análise de dados, como Excel e Power BI. Hoje, a leitura e manipulação de dados são essenciais para orientar decisões, reduzir riscos e garantir assertividade — especialmente em um mercado tão competitivo e acelerado.
Carreiras além da criação: os bastidores que sustentam a moda
A gerente de compras percebe que entre estudantes e jovens designers, ainda existe certa resistência às áreas ligadas a negócios, muitas vezes associadas ao receio de lidar com números. No entanto, afirma que a matemática é parte inevitável da moda.
A saúde financeira de uma marca depende de decisões que envolvem custo de tecido, tempo de produção, processos industriais e margem de lucro. Esses números são tão determinantes quanto a escolha de uma tendência ou o desenvolvimento de uma estampa, afirma a designer.
Além disso, áreas como produção, indústria têxtil, modelagem e fornecimento de matéria-prima oferecem oportunidades riquíssimas e demandam profissionais qualificados. O conhecimento técnico aliado à leitura de tendências é altamente valorizado em fábricas, confecções e importadoras, por exemplo.
Como designers podem descobrir seu verdadeiro “match” dentro desse universo tão amplo — criação, produto, desenvolvimento, compras, estilo, planejamento, logística; etc?
Quanto mais se jogarem no mercado melhor. É fazendo o trabalho que sabemos se temos match com ele ou não. O linkedin pode ser uma boa ferramenta para encontrar profissionais das áreas de interesse. Adiciona a pessoa, marca uma chamada de vídeo e faça perguntas. Peça indicação para os professores, colegas de profissão e seja cara de pau. Uma boa conversa vai fazer com que você conheça áreas que talvez nem sabia que existiam.

O que aprendeu sobre si mesma ao transitar entre funções tão distintas?
Que não existe nada que a gente não possa aprender. Eu tinha certeza absoluta que jamais teria capacidade para trabalhar com números e que seria para sempre uma pessoa de "humanas". Com o tempo isso começou a me incomodar porque limitava várias coisas que eu poderia ser como profissional e como pessoa. Com dedicação e interesse genuíno, isso mudou e expandiu minhas possibilidades no mundo e me trouxe uma segurança profissional muito grande. A matemática fez muito mais sentido pra mim quando aplicada a um contexto que eu amo: a moda.
Compras: onde dados, produto e cliente se encontram
A entrada na área de compras trouxe uma surpresa positiva: os dados não limitam a criatividade, mas a potencializa. Ao trazer racionalidade para o processo criativo, o foco se desloca para quem realmente importa — o cliente. Dados ajudam a decodificar tendências, equilibrar ego criativo e traduzir desejos em produtos viáveis, desejáveis e rentáveis.
Ainda persiste o mito de que compras “corta” a diversão da criação. Na prática, o trabalho conjunto entre áreas é o que garante coleções fortes, alinhadas ao posicionamento da marca e sustentáveis financeiramente. O planejamento e o acompanhamento da execução da coleção passaram, com o tempo, a despertar mais interesse do que a criação em si — e foi aí que ficou claro que compras não era apenas uma etapa, mas o centro da atuação profissional.
O papel estratégico da Gerência de Compras
De forma objetiva, a Gerência de Compras lidera times responsáveis por planejar e executar a estratégia de coleção de uma marca. Garantir venda, margem e giro é parte central do trabalho, sempre alinhado ao preço, ao produto e à velocidade esperada pelo cliente, explica Hanny.
Para isso, alguns pilares são indispensáveis: visão estratégica, negociação, profundo conhecimento técnico de produto, leitura de tendências e análise de dados. Além disso, a capacidade de criar boas conexões é fundamental, já que a área de compras dialoga constantemente com estilo, comercial, fábricas e logística.
Em cargos de liderança, a rotina se torna majoritariamente estratégica. Já na função de buyer, o equilíbrio tende a ser mais operacional, exigindo agilidade, organização e tomada de decisão constante.

Fornecedores, técnica e inovação
A relação com fornecedores é baseada em parceria. Quando a cadeia funciona de forma colaborativa, o desenvolvimento do produto se fortalece. Fábricas trazem conhecimento técnico que amplia possibilidades criativas e produtivas, impactando diretamente o resultado final.
Nesse contexto, o conhecimento técnico sobre fibras, acabamentos, construção e qualidade é determinante. Só é possível negociar bem aquilo que se compreende profundamente. Em um cenário de pressão por custos, entender cada etapa do processo produtivo permite agir com precisão, propondo alternativas viáveis e conscientes.
Para manter assertividade sem perder inovação, dois fatores se mostram essenciais: qualidade dos dados e velocidade. Testar rápido, aprender com o teste e ajustar o percurso faz parte da dinâmica de um mercado em constante movimento.
Que conselho você daria para designers e estudantes que ainda não enxergam as múltiplas oportunidades além da criação?
Pesquisem muito. Pesquisem várias empresas e marcas e quais funções existem ali. Falem com muitos profissionais da área, troquem com eles.
Qual é o maior orgulho da sua trajetória até aqui — e o que você ainda deseja conquistar?
A confiança de que sou capaz de enfrentar qualquer desafio que surja porque tenho capacidade de seguir aprendendo. Ainda existem várias áreas e assuntos que quero conhecer mais. Quero poder promover mudanças no setor de moda brasileiro fazendo com que seja mais assertivo, mais veloz, mais sustentável e mais rentável para toda a cadeia.




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